Em sua investigação sobre as linhas, o antropólogo Tim Ingold sugere que a vida não se constitui por formas fixas, mas por percursos. Habitar o mundo seria seguir fios, acompanhar trajetórias, participar de um emaranhado contínuo de relações. Antes de serem superfícies, as tramas seriam vestígios de movimentos, registros de encontros. É a partir desse território que as pesquisas de Eva Soban e Lucy Villa-Lobos se aproximam. As obras crescem como organismos, acumulando gestos, desvios e temporalidades. Em ambas, a ideia de fio torna-se matéria de pensamento. Cada ponto, dobra ou entrelaçamento revela um processo de construção, que ganha um corpo conjunto em Outras formas de existência, diálogo entre os trabalhos inéditos das artistas, na Galeria MaPA.
Uma das pioneiras da arte têxtil contemporânea brasileira, Eva Soban desenvolve uma investigação na qual a fibra adquire presença escultórica. Suas estruturas parecem emergir de uma lógica própria da matéria. O tecido deixa de ser suporte para tornar-se corpo. Em seus mais recentes trabalhos, Soban cria formas orgânicas isoladas, que podem ou não estar em relação, mas que desenham no espaço espécies celulares, amorfas, como se estivessem no início ou no fim de um estado de transmutação. Flutuantes no espaço, elas deixam-se atravessar por cenas, propondo elos do espectador com outras figuras presentes na sala. Há em sua obra uma imaginação da matéria, no sentido proposto por Gaston Bachelard; a forma não se impõe ao material, mas nasce de suas potências e devaneios. As fibras parecem crescer segundo um tempo próprio, expandindo-se como organismos em gestação. Soban produz corpos ambíguos, que oscilam entre arquitetura e natureza, interior e exterior, abrigo e exposição. São formas em suspensão, como se estivéssemos diante do instante em que a matéria começa a sonhar outra forma de existência.
Na nova série de Lucy Villa-Lobos, o bordado opera por meio da tinta a óleo como um exercício de proliferação. Linhas se acumulam, ramificam-se e avançam pela superfície, construindo paisagens que oscilam entre o vegetal, o imaginário e o abstrato. Mais do que representar jardins ou florestas, a artista parece acompanhar os próprios modos de crescimento da natureza, seus ritmos de expansão, sobreposição e entrelaçamento. Se durante décadas a geometria funcionou como princípio organizador da pintura de Lucy Villa-Lobos, nas obras reunidas na atual exposição ela parece abrir espaço para outra lógica. As linhas, antes associadas à ordem e à repetição, tornam-se errantes e sinuosas. Não abandonam completamente a estrutura, mas a tornam permeável ao acaso, à contaminação e ao desafio de desfragmentar-se. Cruzando uma paleta de tons terrosos, em um vaivém circular, as pinturas criam espécies de redes miceliais de comunicação. Como os fungos que se expandem sob a terra, suas linhas avançam silenciosamente, conectando regiões distintas da superfície e mostrando que toda forma é, antes de tudo, relação.
Essa aproximação encontra ressonância no conceito de rizoma desenvolvido por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Diferentemente das estruturas hierárquicas e lineares, o rizoma cresce por conexões múltiplas, sem centro ou direção única. Não possui origem estável nem percurso predeterminado: avança por contaminações, desvios e encontros, expandindo-se em todas as direções. Está sempre no meio, em processo, produzindo relações. As obras reunidas nesta exposição parecem compartilhar dessa lógica. Como organismos em constante mutação, elas se constituem por aproximações e ramificações, formando sistemas abertos nos quais cada elemento reverbera sobre os demais. Entre fios, volumes e linhas que se proliferam, o que emerge é uma poética da interdependência, em que a forma nunca é definitiva, mas sempre a expressão provisória de uma rede de relações.
Entre a dimensão escultórica de Soban e a densidade pictórica de Villa-Lobos, emerge uma reflexão sobre a própria condição da matéria. Os fios não apenas compõem imagens ou estruturas; eles tornam visíveis as relações que nos sustentam. Como raízes subterrâneas ou cursos d’água, conectam corpos, tempos e paisagens. Tramar, seja com fios de algodão ou tinta, é uma forma de habitar. Um gesto que transforma a linha em percurso, a matéria em memória e o entrelaçamento em possibilidades de mundo.
Ana Carolina Ralston